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Blog EntryNov 24, '05 7:27 PM
for everyone

Marcelo Buda

A coluna do Herik na semana passada me deixou com uma pulga atrás da orelha. Ao falar sobre o fechamento de dois bares tradicionais da cidade (Lino´s e 92 Graus), freqüentado por um público que não se rende a modismos e que tem o rock como estilo de vida, me veio a cabeça que a atual rádio rock de Curitiba (96), também vai fechar suas portas. A data já foi marcada, 31 de dezembro de 2005. A partir do primeiro dia do ano de 2006, a sintonia 96,3 Mhz vai dar lugar a Band News, emissora com programação jornalística.

Curitiba, que tem um público roqueiro fiel, um dos melhores e mais bonitos locais para grandes shows do Brasil (Pedreira Paulo Leminski), diversos bares e casas de shows e uma cena musical com inúmeras bandas, vai ficar mais uma vez sem uma rádio rock ? Tomara que não. Com a entrada da Band News a programação pode migrar para uma outra emissora, mas tudo ainda não passa de boatos, nada foi confirmado.

A história de rádio rock em Curitiba começou com a Estação Primeira. Transmitindo sua programação em 90,1 Mhz, foi a emissora mais marcante entre o público roqueiro, chegou com estilo revolucionário numa época em que o mercado publicitário da cidade ainda era fraco nesse segmento. Sobreviveu bravamente até dar lugar a CBN, coincidentemente ou não, outra emissora com conteúdo jornalístico. A Estação Primeira foi marcante pela simplicidade, sem as famosas firulas do locutores de FM, escalando mulheres para locução, responsáveis por dar um charme todo especial a emissora. Claro, a programação rock chamou atenção do público jovem, formador de opinião, e no momento em que o mercado começou a perceber que esse público também era consumidor, a Estação foi obrigada a deixar de transmitir sua programação. Ouvintes fiéis ficaram transtornados, protestaram, mas já era em vão.

Uma outra rádio de Curitiba, a Alternativa FM, percebendo que esse público ficaria sem ter o que ouvir e que existiria um ótimo mercado a ser explorado, logo mudou seu estilo, e aos poucos a programação musical que era Pop, foi dando lugar ao Rock. Diversos funcionários da Estação Primeira foram contratados, e a sintonia 106,5 Mhz se firmou como a rádio rock de Curitiba. Mas a Alternativa não poderia ser uma cópia da Estação. Por isso procurou realizar uma "plástica" mais elaborada, com mais vinhetas e trilhas, mesclando um pouco de pop com rock, começou espaço ao jazz e blues, e tinha como ponto forte as promoções e parcerias com casa de shows. Aos poucos a Alternativa ia se acertando, aumentando sua audiência e chegou a ser terceiro lugar geral no Ibope, primeiro disparado na faixa etária dos 15 aos 25 anos, sem dúvida uma bela conquista para uma rádio rock. O mercado havia melhorado muito, os anunciantes aumentavam a cada dia e ao mesmo tempo nunca se viu tantas atrações musicais de peso (nacionais e internacionais) como naquela época. Parecia que tudo ia muito bem, até chegar a notícia de que, mais uma vez, a rádio rock não seria mais rock. O jornalismo dessa vez não foi o "vilão", mas sim uma Igreja Evangélica.

Se quando a Estação Primeira acabou logo a Alternativa assumiu uma identidade rock, dessa vez foi diferente, nenhuma outra emissora decidiu apostar nesse segmento, e por alguns anos os roqueiros de Curitiba passavam longe do rádio. Demorou até alguém perceber que todos estavam perdendo com essa situação, o público jovem, a cultura local, produtores de shows, anunciantes, enfim, a cidade de forma geral. A vida cultural de Curitiba ia esfriando a cada dia, pouquíssimas atrações de peso colocam a cidade no calendário, e tivemos que sobreviver com a cena local, que também sentiu-se enfraquecida por não ter um canal de divulgação. Com exceção da Rádio Educativa, emissora estatal com foco na música brasileira, o que se via musicalmente nas rádios de Curitiba era o que pode ser chamado de descartável. Isso não poderia ficar assim por muito tempo, e foi então que Studio 96 viu o que já estava claro para muita gente, Curitiba não poderia ficar sem uma rádio rock. Pode-se dizer que a 96, principalmente no seu início, foi uma mistura de Estação Primeira com Alternativa FM, a maioria de seus funcionários haviam trabalho em uma das duas emissoras, alguns nas duas, e rapidamente a 96 conquistou seu público, e assim como a Estação e a Alternativa, sempre foi líder de audiência entre o público jovem na cidade.

Mais uma vez parecia que tudo andava muito bem, lógico, toda rádio tem motivos de críticas e insatisfações, todas as mencionadas aqui tiveram seus méritos e suas falhas, mas o fato é que bem ou mal, uma rádio que contribui muito com a cultura local, vai fechar suas portas.

E aquela pulga atrás da minha orelha não para de azucrinar. O que leva uma rádio rock ter vida tão curta em Curitiba? Várias respostas podem surgir, diversas teorias podem ser abordadas, mas fica evidente que dinheiro e política são fatores de enorme influência. A certeza que fica é que as pessoas é que a cultura deve sobreviver de qualquer forma, não pode ser e não é dependente de um ou outro meio de comunicação, está na cabeça de cada um de nós. Curitiba só terá uma cena cultural forte se o povo curitibano quiser. E como uma pulga nunca vem sozinha, outra pede atenção e pergunta no meu ouvido: o povo curitibano quer cultura?


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Mauro e Camila Casados e Felizes